Um pouco sobre acreditar

Um pouco sobre acreditar

Vamos começar uma segunda-feira diferente!

O post de hoje conta um pouco da minha trajetória. Não porque eu me sinta de alguma maneira importante, mas porque eu gostaria de compartilhar uma história sobre acreditar, e, de alguma forma, poder ser semente lançada no solo descuidado de alguém. 

O ser humano nasceu para desenvolver plenamente as suas potencialidades, mas isso exige exercício diário, ainda que a fé se perca no caminho.

Por isso, umas das coisas mais importantes que se pode fazer em prol da felicidade é exercitar a virtude da disciplina. E, como diria Safatle, não necessariamente a disciplina militar, que normaliza, mas aquela do artista, que se preocupa em dar o melhor de si em prol da obra que ele acredita.

A minha história é sobre acreditar. Sou nordestina, mas nunca vivi, por exemplo, o triste destino que o sertanejo tem no interior do meu Ceará. Ou seja, sempre tive oportunidades, além de condições básicas para me virar. Estudei em escola particular. Fui para a Universidade Federal do Ceará e me graduei em Direito em 2012. Nesse meio tempo, estagiei voluntariamente na Defensoria Pública do Ceará (onde conheci o trabalho dessa linda instituição) e, depois, no Tribunal de Justiça, onde permaneci até um pouco tempo depois de formada.

Ao me formar, tive algumas dúvidas sobre o caminho que eu iria tomar, pois sempre me interessei pelo meio acadêmico e pretendia fazer logo uma pós graduação, em razão disso. Mas eu sabia que, no fundo, não era esse o meu sonho de vida mediato, que ainda não era muito claro. 

Resolvi começar a estudar para concursos em 2013, por incentivo das minhas grandes amigas da faculdade, que, até então, só faziam provas de Defensoria (e hoje são quase todas Defensoras Públicas), e, por incrível que pareça, Bob Marley me fez decidir: "Nunca troque o que mais quer na vida pelo que mais quer no momento". E foi assim, iniciando meus estudos para a carreira da Defensoria Pública, que eu reconheci a minha essência.

A parte boa dos estudos para concurso é que todo o processo que se vive traz grande amadurecimento em razão do autoconhecimento. A parte ruim, acho que é dispensável e vocês já devem conhecer. Na verdade, acho que não é bem parte ruim, mas apenas o custo da escolha.

A primeira prova que eu fiz foi a Defensoria Pública do Estado do Amazonas, em 2013, que me marcou por um belo, porém duro, choque de realidade: eu ainda estava muito aquém, obviamente. No mesmo ano, ainda fiz a Defensoria Pública do Distrito Federal e a de São Paulo. Sem chances. Lembro como a Defensoria de São Paulo me marcou e do quanto cresci com a experiência daquela prova.

A minha dificuldade sempre foi a primeira fase (de tão teimosa). Passei muito tempo até ter resultados e, durante todo o caminho, tive muitos percalços, muitas quedas, mas nunca deixei de acreditar.

Já em 2014, fiz o concurso do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (Oficial de Justiça) e tive, pela primeira vez, uma vitória. Durante todo o ano, cheguei a fazer outras provas de Defensoria, como a de Goiás e do Paraná, e, em todas, não cheguei sequer perto de ter êxito. Sem dúvidas, a pior reprovação desse ano foi a da Defensoria do Estado do Ceará, o meu Estado.

No fim desse mesmo conturbado ano, fui morar em Macapá, Estado do Amapá, pois o meu noivo tinha passado em um concurso federal e foi lá lotado. Fui com medo. Medo do novo. Medo do que o futuro reservava. Mas passei a construir uma rotina e a cuidar da minha nova casa, sempre focada no meu objetivo

O ano de 2015 guardou algumas fortes emoções! Fiz o concurso de analista do Tribunal de Justiça do Amapá e fiquei classificada quase dentro das vagas, mas nunca fui chamada. Logo em seguida, fui convocada para assumir o concurso de Oficial de Justiça do Estado do Ceará, e lá fui assumir meu primeiro cargo, no interior chamado de Sobral, que ficava há 5 horas de ônibus da capital.

Vivi bons momentos, pois cheguei a morar com a minha irmã, que, na época, fazia faculdade de medicina no mesmo interior; mas ainda não me sentia completa e nem realizada. Resolvi tomar uma decisão aparentemente difícil, mas que para mim só parecia racional, e decidi pedir exoneração do cargo e voltar à Macapá, para continuar na saga dos estudos para a Defensoria. Fui bastante criticada, mas estava firme no meu propósito.

Nesse mesmo ano, obtive a minha primeira aprovação na carreira da Defensoria, mas ainda fiquei bem longe das vagas, na Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte! Quanta felicidade ainda assim! Lembro de quase não ir fazer a prova, por não me achar suficientemente preparada. A prova oral foi às vésperas do meu casamento, já em 2016, e foi bem desgastante, mas muito recompensador.

Em 2016, também fui aprovada na Defensoria Pública do Espírito Santo, mas também fora das vagas. O concurso exigiu muito de mim, durante todo o ano, pois dei o melhor que podia dar, incessantemente. Cheguei a fazer a Defensoria do Paraná, mas fui reprovada na segunda fase.

Já em 2017, saiu o edital da Defensoria Pública da União. Esse ano me mostrou definitivamente que eu precisava ser fortaleza. Após estudar muito, além de me privar de quase tudo, acabei reprovada por uma questão no grupo IV. O pior foi alimentar esperanças, pois havia duas questões certas de serem anuladas e apenas uma foi anulada, que eu já tinha acertado. Dessa forma, perdi o concurso da DPU num piscar de olhos. Foi o único momento em que eu realmente pensei em desistir.

Como não passei na DPU, fiz a prova da Defensoria de Alagoas, dias depois, e, para minha surpresa, fui muito bem na objetiva. O problema é que algo que ainda não tinha acontecido ocorreu: caí muitas posições com a fase subjetiva. Passei no concurso, mas, novamente, fora das vagas.

Finalmente, em 2018, saiu o concurso da Defensoria do Amapá, o primeiro concurso público da carreira do último Estado que faltava implementar a instituição no Brasil. Como eu já estava muito desgastada emocionalmente, foi muito difícil seguir nesse concurso. Juntei todas as forças que eu tinha e estudei como pude, dentro de todas as minhas limitações. Para a minha felicidade, deu tudo certo e fui aprovada dentro das vagas!

Hoje, sou Defensora Pública do Estado do Amapá. No lugar que eu já tinha escolhido viver. Tomar posse de um sonho e torná-lo realidade traz os sentimentos mais loucos e incríveis. Traz gratidão, responsabilidade, orgulho da sua trajetória.. mas, acima de tudo, desperta o melhor que há de você. Desperta a vontade de dar tudo de si, incessantemente; a necessidade de aprimorar o olhar para o outro, porque sem ele não há razão de existir. Desperta uma força inexplicável, para não esmorecer tentando explicar o óbvio; além da consciência de que o caminho é longo, mas vale a pena persistir.

Hoje, posso dizer que sou Defensora Pública! Mas a verdade é que esse processo é um constante tornar-se. Espero poder me tornar Defensora todos os dias, e não esquecer jamais do motivo que me move. Hoje, firmo o compromisso de não fugir da luta, porque ela constantemente vai me ensinar. Que eu possa continuar firme nessa jornada, cheia de desafios, que me aguarda para o começo de uma linda história.

Tomei posse do meu sonho no dia 25 de março de 2019, e vim aqui compartilhar um pouco da minha experiência para dizer: nunca deixe de acreditar. O caminho pode ser longo. Vão querer lhe desmotivar de todas as formas. Mas siga firme no que acredita. Siga firme, acreditando que a sua vida pode mudar. Realize o seu potencial e viva como se deve viver: plenamente. Acredite que, com dedicação, você irá alcançar algo melhor do que sonhou. Peça ajuda se for preciso. Mas nunca desista!

Hoje eu me sinto realizada, pois conheço a minha essência. Busque a sua. E, como fala Guimarães Rosa em "A hora e a vez de Augusto Matraga", "reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua".

Giovanna Burgos

https://rumoadefensoria.com
  • Ramon S
    Ramon S02.04.19 07h35

    Muito legal, Giovanna, parabéns pela conquista!

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